
Morando na chácara, todo mundo assume automaticamente que eu sou uma espécie de homem do campo versátil, capaz de consertar cerca, trocar pneu e identificar problema de motor só pelo barulho. A verdade, que eu escondo com uma competência de ator, é que eu não sei fazer quase nada disso. Quando o pneu fura eu ligo pro seguro, rezando pra ninguém passar de carro e ver a cena. Cerca eu chamo alguém. Motor eu nem finjo que entendo, só balanço a cabeça sério quando o mecânico explica, torcendo pra ele não perguntar minha opinião de volta.
Resolvi então fazer um levantamento honesto do meu currículo de incompetências domésticas, porque escrever sobre vulnerabilidade emocional é fácil, mas confessar que não sei fazer nó de gravata decente aos quarenta anos exige uma coragem diferente. Faço nó torto, sempre curto de um lado, e resolvo isso com o truque infalível de deixar o paletó fechado. Entendo de vinho o suficiente pra dizer "esse aqui é redondinho" e nada além disso, o que já rendeu silêncios constrangedores em jantar com gente que sabe mesmo do assunto. Até porque falar que você não bebe em alguns círculos parece equivalente a anunciar uma doença contagiosa.
O item mais vergonhoso da lista é o seguinte: eu, que escrevo sobre sentimento pra viver, ainda erro na hora de fazer um ovo frito sem furar a gema, uma taxa de sucesso baixa o suficiente pra virar piada recorrente em casa. O John já desistiu de me deixar fritar ovo sozinho quando tem visita. Cozinhar, então, ele nem se atreve a deixar. Eu aceito a aposentadoria antecipada com dignidade.
O motivo de eu estar contando isso não é só pra rir de mim mesmo, embora isso já valha o texto. É porque reparei que a gente gasta uma energia enorme mantendo a imagem de gente que dá conta de tudo, e essa imagem custa caro justamente porque é mentira em algum ponto. Todo mundo tem currículo de incompetência guardado na gaveta, junto com o currículo de verdade que a gente mostra pra empresa e pra internet. O meu só tem mais item de cozinha e menos item de planilha, mas a gaveta é a mesma de todo mundo.
E da próxima vez que alguém confessar, sem graça, que não sabe fazer alguma coisa básica, eu prefiro lembrar dessa lista minha antes de estranhar. Tem gente por trás de currículo impecável que não sabe fritar ovo, fazer nó de gravata nem trocar pneu sem chamar o seguro. Alguns até escrevem coluna pra quarenta jornais. Citando nomes, não, mas fica a suspeita.
Enrico Pierro é escritor e colunista, autor de Duas da manhã. Leia outras crônicas em enricopierro.com.br
