
Eu desenvolvi uma técnica infalível para dormir: contar cachorros. Ovelha nunca funcionou para mim, acho que por falta de intimidade, nunca convivi com ovelha nenhuma. Então eu conto os meus cachorros, um por um, imaginando cada um pulando uma cerquinha. O problema é que são só quatro, a contagem acaba rápido, e aí a Pandora se recusa a pular de novo, o Bartô fica preso na cerca, e quando eu percebo estou administrando um canil imaginário às duas da manhã em vez de dormir. A técnica é infalível no sentido de que falha sempre.
Porque a verdade é que insônia não é um problema de contagem. É um problema de agenda. A minha cabeça descobriu que a madrugada é o único horário em que eu não tenho reunião, não tenho texto para entregar, não tenho ninguém precisando de mim, e decidiu marcar todos os assuntos pendentes para esse horário. Duas da manhã é o horário comercial da minha angústia. Ela abre o escritório pontualmente e vem com a pauta pronta: aquele problema de trabalho que eu vinha adiando, aquela conversa mal resolvida, aquele plano adiado, e, de brinde, um constrangimento de 2009 que ela guarda no arquivo morto só para essas ocasiões.
Eu já tentei de tudo. Chá, respiração, aquele áudio de chuva que promete relaxamento profundo e entrega goteira. Nada resolve, porque nada disso ataca a causa. A causa é que eu passo o dia inteiro ocupado demais para sentir qualquer coisa, e sentimento não expira, ele acumula. O que eu empurro para depois às três da tarde volta cobrando juros às duas da manhã. A insônia, no fundo, é a caixa de entrada emocional que eu me recuso a abrir de dia.
E desconfio que não sou só eu. Desconfio que exista uma multidão silenciosa acordada nesse exato horário, cada um na sua cama, todos administrando seus canis imaginários e suas pautas noturnas, todos se achando os únicos. A cultura da produtividade nos ensinou a preencher cada minuto do dia, e a conta chega de noite, quando o corpo finalmente para e a mente, sem tarefa para executar, resolve executar a gente.
Não tenho solução mágica para oferecer, porque se tivesse eu estaria dormindo em vez de escrever esta coluna, que aliás nasceu, adivinhe, às duas da manhã. O que eu tenho é uma trégua recém-negociada: em vez de brigar com a insônia, eu comecei a escutar o que ela quer dizer. Às vezes ela só quer entregar um recado que o dia não deixou. Anoto o recado, agradeço, e volto para a cama. Nem sempre funciona. Mas funciona mais que ovelha. E empata com cachorro.
@enricopierroofc
