
Outro dia eu me peguei fazendo uma coisa ridícula. Eu estava no celular, tarde da noite, comparando meus números de seguidores com os de um colunista quinze anos mais novo que eu. Quinze anos. O rapaz provavelmente estava aprendendo a andar quando eu já pagava boleto, e mesmo assim lá estava eu, quarentão, contando os seguidores dele como quem confere o troco do padeiro, desconfiado de que a vida tinha me passado a perna em algum caixa.
Quando eu me dei conta do que estava fazendo, ri sozinho no escuro. Porque não era sobre o rapaz, coitado, que nem sabe que existe um senhor no interior o auditando de madrugada. Era sobre a régua. Essa régua invisível que eu carrego desde sempre e que vive medindo a minha vida contra a vida dos outros, sem nunca me perguntar se eu autorizo a medição.
E aí eu comecei a pensar de onde veio essa régua. Não fui eu que fabriquei, disso eu tenho certeza, porque se fosse minha ela mediria coisas que eu valorizo de verdade: quantas tardes de sofá com os cachorros, quantos jantares bons, quantos textos que fizeram alguém chorar de reconhecimento. Mas não. A régua que eu carrego mede seguidor, mede curtida, mede cargo, mede a idade em que cada conquista deveria ter acontecido. Ela foi montada por comentário de parente, por capa de revista, por algoritmo. É uma régua de origem coletiva, e eu nem lembro de ter assinado o recebimento.
O mais engraçado, se é que dá pra rir, é que todo mundo à minha volta carrega uma igual. O colunista jovem que eu auditava provavelmente se compara com alguém maior que ele, que por sua vez se compara com outro maior ainda, numa escadaria infinita onde ninguém chega ao topo porque o topo é uma mentira de perspectiva. Estamos todos medindo a própria vida com a fita métrica do vizinho e estranhando que o resultado nunca bate.
Não vou mentir dizendo que joguei a régua fora, porque isso seria a versão instagramável da história, e aqui a gente combinou de ser honesto. A régua continua comigo. Mas agora, pelo menos, quando ela aparece medindo o que não devia, eu consigo perguntar: de quem é essa marca? Quem decidiu que essa é a medida do suficiente? Na maioria das vezes a resposta é: não fui eu. E só essa pergunta já encurta a régua uns bons centímetros.
@enricopierroofc
