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Com custo quase 50 vezes menor que modelos comerciais, biodigestor criado por alunos de SP ganha destaque internacional

Projeto da Escola Estadual Professor Sebastião de Oliveira Rocha, de São Carlos, transforma resíduos orgânicos em biogás e biofertilizante; iniciat...

Por: J6 Live Fonte: Secom SP
07/06/2026 às 12h11
Com custo quase 50 vezes menor que modelos comerciais, biodigestor criado por alunos de SP ganha destaque internacional
A iniciativa nasceu a partir do trabalho desenvolvido grupo de pesquisa formado por alunos e professores da escola de período integral – Foto: DIvulgação/Governo de São Paulo

Uma solução criada dentro de uma escola pública do interior paulista atravessou continentes e chegou ao Camboja. Desenvolvido por estudantes e professoras da Escola Estadual Professor Sebastião de Oliveira Rocha, em São Carlos, o projeto de um biodigestor de baixo custo foi apresentado na Ásia após receber um convite para participar de uma mostra internacional de inovação voltada à sustentabilidade.

A iniciativa nasceu a partir do trabalho desenvolvido pelo clube Tesla — grupo de pesquisa formado por alunos e professores da escola de período integral —, e busca enfrentar um desafio presente em qualquer comunidade: o destino dos resíduos orgânicos. A partir do trabalho de alunos e professoras da escola, restos de alimentos podem ser transformados em biogás e biofertilizante.

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O diferencial do projeto está justamente nos custos para criação do biodigestor, quase 50 vezes mais barato que os modelos comerciais. “O trabalho vai ser o mesmo. A diferença do nosso é o preço. O nosso custa em torno de R$ 320, enquanto o biodigestor comercial pode custar perto de R$ 15 mil”, explica a professora Bárbara Daniela Guedes Rodrigues, docente de química à frente do projeto desde o ano de 2020.

Como funciona o biodigestor

O equipamento utiliza bactérias anaeróbicas — organismos que vivem sem oxigênio — para decompor matéria orgânica. Durante esse processo são gerados dois produtos: o biofertilizante líquido, utilizado na agricultura, e o biogás, que pode ser aproveitado para geração de energia ou para uso em fogões adaptados.

Além da escola, biodigestores criados pelo clube Tesla já estão presentes em outros dois locais. O projeto foi levado para a casa de uma estudante e também para um assentamento rural da região, onde os resultados vêm sendo acompanhados pelos alunos.

No assentamento, é utilizado principalmente o biofertilizante gerado pelo biodigestor. Segundo a professora Bárbara os primeiros resultados já começaram a aparecer em cultivos de bananeira.

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A escola também pretende ampliar as possibilidades de uso do biogás. Uma nova etapa do projeto prevê a automação do sistema, com monitoramento de parâmetros como pH, controle de temperatura e sensores de segurança para evitar vazamentos.

A professora de biologia e coordenadora pedagógica da escola, Isabel Cristina Santana Kakuda, também atua no clube Tesla e acompanhou os estudantes ao Camboja. Ela conta que o biodigestor faz parte de uma estratégia mais ampla de educação ambiental desenvolvida na unidade: “Os resíduos orgânicos produzidos pelos cerca de 700 estudantes são reaproveitados em diferentes projetos pedagógicos. Cascas de frutas e verduras abastecem composteiras e ajudam a manter a horta escolar, enquanto ações de conscientização buscam reduzir o desperdício de alimentos no refeitório”.

“Os alunos pegam mais comida do que conseguem comer às vezes. Então trabalhamos também o desperdício de alimentos, junto com as ações do clube Tesla”, complementa Bárbara.

Convite internacional

A participação no International Creativity and Innovation Award (ICIA) 2026 – Global Round (ou Prêmio Internacional de Criatividade e Inovação (ICIA) 2026 – Rodada Global, no Camboja, não aconteceu por meio de uma inscrição convencional. O grupo recebeu um convite direto para a etapa internacional após o reconhecimento obtido em programas e redes de inovação científica. O evento aconteceu no fim de abril deste ano.

O caminho começou a partir da aproximação com o pesquisador Marcos Nicolino, ligado à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a iniciativas apoiadas pela Royal Academy of Engineering, do Reino Unido. A partir dessa conexão, o projeto foi apresentado a avaliadores internacionais e acabou selecionado para integrar o evento.

“A nossa escola recebeu o convite ouro. Eu ainda não acredito em tudo o que aconteceu. No evento, ganhamos a medalha e o certificado”, conta a professora Bárbara.

Para o estudante Brian Costa Viana, de 15 anos de idade, a experiência foi tão importante quanto o reconhecimento recebido: “Eu fico muito contente pela representação do nosso trabalho, do que a gente fez. Estamos levando essa conscientização do meio ambiente para frente, para outras pessoas e comunidades, e isso é muito gratificante”, afirma.

Segundo ele, a convivência com estudantes de outros países foi um dos pontos mais marcantes da viagem. Brian conta que eles apresentaram a tecnologia para participantes de diferentes países: “Tivemos momentos de troca de informação, cultura e apresentação dos projetos. Conhecemos estudantes das Filipinas, do México e do Japão. Foi uma experiência muito especial”.

Alunos com o Prêmio Internacional de Criatividade e Inovação (ICIA) 2026 – Foto: Divulgação/Governo de São Paulo
Alunos com o Prêmio Internacional de Criatividade e Inovação (ICIA) 2026 – Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

Brian foi escolhido para representar a escola ao lado da estudante Ana Clara Bardasi Cotillo, de 17 anos de idade. Entre os critérios considerados estavam a disponibilidade de documentação para a viagem e a capacidade de realizar toda a apresentação em inglês. A diretora da escola, professora Lucinei Aparecida Tavoni Bueno, também viajou com o grupo.

Mobilização para viabilizar a viagem

A viagem ao Camboja foi custeada por meio de recursos da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), além de apoios complementares da Prefeitura de São Carlos, de uma empresa do setor de drones e de parceiros ligados ao projeto.

A mobilização permitiu investir nas passagens e despesas necessárias para a participação internacional.

Histórico de premiações

O reconhecimento internacional é resultado de uma trajetória construída ao longo de vários anos pelo clube Tesla. Em 2021, a Escola Estadual Sebastião de Oliveira Rocha conquistou o primeiro lugar nacional no Solve for Tomorrow, programa de incentivo à educação científica promovido pela Samsung. Desde então, o biodigestor passou por sucessivos aprimoramentos, incorporando novos testes, adaptações e aplicações práticas.

A proposta também ganhou um caráter social. Além de democratizar o acesso à tecnologia, como próximos passos, a equipe pretende disponibilizar gratuitamente um manual e um site com orientações para que qualquer pessoa possa construir seu próprio biodigestor.

“Nosso projeto não tem fins lucrativos. Vamos disponibilizar o material para quem quiser montar em casa”, afirma a professora Bárbara.

Formação de novos cientistas

Os resultados do projeto vão além dos prêmios conquistados. A participação em pesquisas e competições científicas tem sido a porta de entrada de estudantes da escola após a conclusão do Ensino Médio para outros projetos e para a formação em áreas correlatas.

Segundo a professora, diversos ex-alunos seguiram carreira em áreas ligadas à ciência, tecnologia e engenharia. Entre eles está João Almas, atualmente estudante de engenharia na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), que já estagiou no acelerador de partículas da Unicamp e realizou experiências acadêmicas na França e na Espanha.

Outro exemplo é Gabriel Nunes, aprovado em engenharia de produção na USP (Universidade de São Paulo), no campus de São Carlos, por meio do Provão Paulista Seriado.

“Eles já saem diferenciados para a faculdade. A maioria foi para uma universidade direto, sem passar pelo cursinho”, destaca Bárbara.

Enquanto novos estudantes assumem os projetos do clube Tesla, a expectativa é ampliar ainda mais o alcance da tecnologia criada dentro da escola. O objetivo permanece o mesmo que motivou os primeiros experimentos: mostrar que soluções para desafios ambientais complexos podem nascer em qualquer lugar — inclusive dentro de uma sala de aula da rede pública.

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