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O Brasil que desaprendeu a ler (e agora manda áudio pra tudo)

Entre áudios intermináveis e a impaciência com textos simples, o hábito da leitura perde espaço no cotidiano brasileiro — e revela impactos diretos na escrita, no pensamento e na forma como nos comunicamos.

César Irará
Por: César Irará Fonte: @enricopierroofc
08/04/2026 às 20h51
O Brasil que desaprendeu a ler (e agora manda áudio pra tudo)
Foto: Divulgação

     Às vezes eu fico pensando quando foi que o brasileiro decidiu, coletivamente, que ler era opcional. Sério. Parece que, em algum momento entre a febre do WhatsApp, os reels infinitos e o tédio nacional, a leitura perdeu a disputa.
 E perdeu feio.

Hoje em dia, pedir para alguém ler um texto de três parágrafos é pedir demais. “Me manda áudio.” virou o novo “bom dia”.

Só que tem uma consequência cruel nisso tudo: se a gente não lê, a gente desaprende a escrever. Porque escrever é músculo — e o brasileiro, claramente, não está malhando essa parte. Eu recebo mensagens que mais parecem desafios linguísticos: tudo sem vírgula, sem acento, sem coerência, sem vontade de viver.

Tem dia que eu leio algo e penso: isso aqui não foi digitado, isso aqui foi sofrido.

O mais engraçado é que as pessoas dizem “ah, mas eu não tenho paciência para ler”, como se paciência fosse um talento raro, tipo tocar violino ou fazer imposto de renda sozinho. Não, meu querido, paciência se cria. Ou pelo menos se tenta.

Mas tentar exige… adivinha? Ler. E aí vem o áudio. O áudio de 2 minutos. O áudio de 7 minutos. O áudio de 12 minutos que é praticamente um podcast clandestino. E quando você finalmente responde escrevendo duas frases, a pessoa responde: “desculpa, não li. Manda áudio?”

É isso. Estamos vivendo uma era em que voz ganhou da letra, e a escrita virou quase um dialeto em extinção. Daqui a pouco vamos precisar de biólogo para explicar o que é crase.

Mas sabe o que mais me preocupa? Não é só o fato de não lerem — é que isso afeta tudo.

Quem não lê, escreve mal. Quem escreve mal, pensa mal. Quem pensa mal… bem, está explicado o país.

E eu não estou dizendo para ninguém virar Machado de Assis. Só queria que as pessoas voltassem a ler o básico. Uma legenda. Um e-mail. Uma placa. Uma porcaria de manual. Qualquer coisa que não inclua apertar um botão verde e despejar um áudio de ópera dramática às 23h47.

Talvez ainda dê tempo de salvar esse hábito. Talvez não.

Mas, enquanto isso, sigo aqui tentando escrever num país que responde texto com áudio. E talvez essa seja a mais perfeita definição da vida contemporânea brasileira:
 Um grande texto ignorado, e um grande áudio que ninguém pediu.

@enricopierrofc

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